Tenho ótimas recordações da minha infância, de quando assistia os jogos do campeonato holandês ao lado do meu saudoso avô. Não sei se era exatamente pelo futebol ou pelo fato dos jogos coincidirem com a hora da sobremesa que a minha avó servia, mas a verdade é que eu adorava passar aquelas tardes assistindo os jogos da Erediviese.
Meu avô, apesar de ter ido diversas vezes ao Maracanã, entendia muito pouco de futebol. Mas digamos que ele era esforçado…
Pelo menos três vezes a cada tempo ele me perguntava quem estava jogando. Afinal, não era fácil decorar o nome daqueles times. Era um tal de MVV, Heeren-não-sei-o-que-lá, alguma-coisa-noord. Enfim…
E quando era gol?
Quando era gol, ele sempre perguntava o nome do jogador que tinha marcado. Queria estar por dentro de tudo!
Na Holanda, para o azar dele, os artilheiros costumavam ter nomes muito esquisitos… Era o tal do Pierre van Hooijdonk, Jimmy
Floyd Hasselbaink, e por aí vai… Resultado: Ele não entendia nada, mas pedia para repetir até desistir de decorar.
Coitado…
Naquela época – meados da década de 1990-, os clubes holandeses eram muito competitivos. As partidas eram bem jogadas, havia vários craques em campo… Dava mesmo vontade de assistir.
O Ajax, campeão da europa e do mundo, tinha Van der Sar, Litmanem, Davids, Finidi, irmãos de Boer, Overmars, Kluivert e Kanu; o PSV, além do Ronaldo fenômeno, tinha Stam, Zenden, Cocu, Luc Nilis e Gudjohnsen; o Feyenoord não ficava atrás com Ed de Goy, Bosvelt, Julio Cruz e Larsson; Roy Maakay jogava no Vitesse, John dal Tomasson no Heereveen e assim por diante…
Mas o tempo foi passando, eu cresci, passei a acordar tarde nos fins de semana, sair, viajar, e as visitas à casa dos meus avós começaram a diminuir… a ESPN, durante um período, deixou de transmitir os jogos e, aos poucos, eu me afastei do holandesão.
Muito tempo depois, quando eu já vivia em Londres, fui convidado por um amigo para passar um fim de semana em Amsterdam.
O convite foi aceito na hora!
E, para a nossa sorte, o Ajax jogaria em casa, na Amesterdam ArenA, contra o Sparta.
Como já faz muito tempo, não me recordo de detalhes da partida, mas lembro que foi um dos jogos mais chatos que assisti em toda a minha vida. E olha que a partida terminou 6×2 para o Ajax… Vi oito gols e achei a partida insuportável! Incrível, não?
O jogo foi muito fraco tecnicamente… Se o Ajax não era lá essas coisas, vocês nem imaginam como era o tal do Sparta. Um horror!
Totalmente diferente dos jogos que eu assistia na companhia do meu avô.
O nível do futebol praticado na Holanda caiu muito nos últimos anos. Os três grandes clubes (Ajax, Feyenoord e PSV) não são nem sombra do que eram há 15, 20 anos. Nenhum dos três participou da última Champions League.
O futebol holandês foi representado – muito mal, por sinal – pelo atual campeão nacional, AZ Alkmaar e pelo FC Tweente. E, pasmem, nenhum dos dois conseguiu obter uma única vitória na competição.
Hoje, a Erediviese serve de vitrine para jovens jogadores que sonham em atuar nos maiores campeonatos da Europa, tal e qual o nosso campeonato brasileiro. Os times são formados por jogadores muito jovens que, caso sejam talentosos, são vendidos antes dos 23 anos, e por veteranos que não têm mais lugar nos principais clubes do continente.
Essa nova realidade acaba refletindo na seleção nacional, que já não tem a mesma força da Laranja Mecânica de outras épocas. Van Persie, Van der Vaart, Kuyt e Robben são bons jogadores? Sim… Mas não servem para engraxar a chuteira de craques como Cruyff, Rosenbrink, Gullit, Rijkaard, van Basten e Bergkamp.
Adoraria ver Ajax e PSV brigando de igual para igual com ingleses, italianos e espanhóis pela Champions League… Sinto falta de ver ver o Feyenoord disputando as principais competições europeias…
Mas, analisando a atual conjuntura, acho muito difícil que eles voltem a ser o que eram. Os três estão cada vez mais frágeis, apostam em jogadores praticamente ainda adolescentes, e não há dinheiro para fazer grandes investimentos.
Dá-me a impressão de que a liga e os clubes holandeses pararam no tempo. Ficaram estacionados ali, há 15, 20 anos, exatamente onde eu os deixei.